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Uma descoberta inédita pode mudar a forma como a ciência entende a evolução de alguns tipos de câncer na natureza. Pesquisadores identificaram o primeiro caso conhecido de um melanoma provavelmente transmissível entre bagres-marrons (Brown Bullhead) vivendo em ambiente de água doce, um fenômeno extremamente raro e que, até então, nunca havia sido registrado em peixes.
O estudo foi publicado na revista científica Nature e investigou uma população de bagres no Lago Memphremagog, localizado na fronteira entre os estados de Vermont, nos Estados Unidos, e a província de Quebec, no Canadá.
A investigação começou ainda em 2013, quando pescadores e biólogos passaram a encontrar diversos peixes com manchas escuras e elevadas espalhadas pelo corpo. Exames posteriores revelaram que entre 23% e 37% dos animais analisados apresentavam lesões confirmadas de melanoma, um índice muito acima do esperado para a espécie.
Inicialmente, os pesquisadores acreditavam que a causa pudesse estar ligada à contaminação ambiental. As fortes enchentes provocadas pela Tempestade Tropical Irene, em 2011, levantaram a hipótese de que poluentes presentes na água teriam favorecido o desenvolvimento do câncer.
No entanto, análises genéticas mais detalhadas mudaram completamente essa interpretação.
Utilizando sequenciamento completo do genoma, os cientistas compararam o DNA dos tumores com o DNA saudável dos próprios peixes. O resultado chamou atenção: os tumores encontrados em diferentes indivíduos eram praticamente idênticos entre si, mas bastante diferentes do material genético dos bagres que os carregavam.
Essa evidência indica que o câncer provavelmente não surgiu de forma independente em cada animal. Em vez disso, uma mesma linhagem de células cancerígenas parece estar sendo transmitida entre os peixes.
Apesar da descoberta, o mecanismo exato dessa transmissão ainda permanece desconhecido. Uma das hipóteses é que o contato físico intenso durante o período reprodutivo facilite a passagem das células tumorais de um indivíduo para outro, mas isso ainda precisa ser confirmado.
O que essa descoberta significa para os humanos?
Embora o Lago Memphremagog seja fonte de água potável para mais de 175 mil pessoas, os pesquisadores reforçam que não existe qualquer evidência de risco para seres humanos.
Especialistas lembram que o câncer, em condições normais, não é contagioso. Diferentemente de vírus ou bactérias, o câncer surge a partir de alterações nas células do próprio organismo. Casos naturais de transmissão direta são extremamente raros e, quando ocorrem, costumam estar restritos a circunstâncias muito específicas.
Os cientistas também afirmam que não há sinais de que esse melanoma possa infectar outras espécies de peixes ou animais presentes no lago.
Até hoje, apenas alguns poucos casos naturais de câncer transmissível haviam sido registrados, incluindo o Tumor Venéreo Transmissível Canino (TVTC) em cães, o tumor facial que afeta os diabos-da-tasmânia e algumas formas de câncer encontradas em moluscos bivalves, como mexilhões e mariscos.
Agora, os bagres-marrons passam a integrar essa curta lista.
Além da curiosidade científica, a descoberta pode ajudar pesquisadores a compreender melhor como determinadas células cancerígenas conseguem escapar do sistema imunológico, sobreviver por longos períodos e continuar se multiplicando em novos hospedeiros. Essas informações poderão contribuir para futuras pesquisas sobre a biologia do câncer e seus mecanismos de propagação.